Zé Celso devora Oswald de Andrade na Flip
GABRIELA MELLÃO
DE SÃO PAULO
Oswald de Andrade (1890-1954) não poderia deixar de marcar presença na Flip, evento que o reverencia. Surge para o "grand finale" da festa, muito bem acompanhado de Tarsila do Amaral.
Vivido pelos atores Marcelo Drummond e Letícia Coura, o casal modernista aparece em cena em "Macumba Antropófaga", misto de rito e musical que ocorre em Paraty hoje, às 16h, regido por José Celso Martinez Corrêa. O diretor deve o renascimento de seu teatro a Oswald.
"Oswald é meu maior inspirador. Após 'O Rei da Vela' (1967), eu passei a interpretar tudo a partir de sua visão antropofágica", diz Zé Celso, que o considera como o precursor da independência do Brasil: "Ele é nosso grande descolonizador".
"Macumba Antropófaga" transforma em dramaturgia o "Manifesto Antropofágico", em que Oswald de Andrade lança a antropofagia como movimento cultural.
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| Retrato do diretor de teatro Zé Celso, que marca presença na Flip |
Para Zé Celso, o feito, criado coletivamente pelos artistas do Teatro Oficina, é do próprio Oswald: "Tudo o que ele escreveu é teatralizável. Ele não faz manifesto como um partido comunista, como um discurso. É outra coisa, é um ser vivo, um poema".
Em cena, Oswald e Tarsila bebem absinto, se despem e se contemplam como duas obras de arte. Também dançam e, como legítimos antropofágicos, se devoram.
Não demora para Oswald se transmutar em "Abaporu" (quadro de Tarsila que em tupi-guarani quer dizer "o homem que come gente") e pintar seu "Manifesto Antropofágico" num livro feito de carne humana, que servirá de alimento ao público.
Outros personagens são incorporados à trama, como o preguiçoso Macunaíma, herói sem caráter de seu amigo Mário de Andrade.
Diluídos no coro, surgem figuras tão díspares quanto Berlusconi, Pagu, uma tribo de índios aimorés, Carlos Gomes e Cristo, acompanhados de Napoleão, Freud, dom Pedro 1º, Rousseau, Montaigne e Buñuel, entre outros.
A intenção de Zé Celso é integrar o público da Flip à encenação. "Vamos nos descobrir, decifrando em nossos corpos a obra desse poeta transmilenar do amor, humor e vertigem: Oswald de Andrade", afirma.
