18 de junho de 2011

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Tranquilo como um passarinho

Por Isaac Rehl

Ele foi uma hiena na terra dos leões. Tão cheio de vozes e de forças, mas obrigado a sobreviver das sobras e carniças - sorria enquanto a fome lhe maltratava. Foi o artista mais puro que já conheci: tinha sensibilidade aguçada, criatividade efervescente - juízo e vergonha completamente anormais. Nos olhos dele, pela primeira vez, quiçá a única até hoje, eu vi a arte teatral acontecer de verdade. Nunca tinha visto tanto ódio, fúria, frustração e terror em alguém - e então, depois de me assustar, ele fez um sorriso cúmplice e disse: "É assim que você tem que interpretar o Garcin, Isaac". Ele, que soube tão pouco administrar seu tempo, me ensinou a medir com racionalidade o timing de uma interpretação. Ensinou-me a enxergar os segredos dos personagens, as intenções por detrás das falas em uma peça. Ensinou-me como a arte pode libertar e como a liberdade pode destruir. Seu nome era Luís Vieira Machado, era um sonhador, um amigo e um traste. Sinto saudades das raivas que ele me fazia, das peças montadas de improviso, das conversas intermináveis. Espero que hoje ele esteja representando no teatro das estrelas, ou ouvindo o canto do rouxinol da China, tranquilo como um passarinho.

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