29 de março de 2010

No DIVÃ DAS PALAVRAS

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É LOUCURA NÃO ENLOUQUECER: TRAÇOS DO COTIDIANO
Gilvaldo Quinzeiro



È loucura não enlouquecer! Eis o dilema vivido pelo homem contemporâneo: o que o impede de não ser louco, se a não-normalidade é exatamente a centralidade da contemporaneidade?

O tempo

Um aspecto a ser estudado, a despeito do tema aqui proposto, é a “porosidade” do tempo-espaço, isto é, a falta de um amarradio; de um “nó” separando ou unindo a noção de tempo e de espaço. Aliás, o homem contemporâneo não tem “tempo” e nem “espaço”. Falta-lhe o significante, o simbólico! Fato este que lhe coloca de volta ao “berço”; um “berço” sem seios, diga-se de passagem. Isto significa dizer que mãe-natureza, não é mais a mãe do homem contemporâneo, este a substitui pela mãe-midia.

A orfandade

Em outras palavras, o homem contemporâneo é uma criança órfã, tal como poderiam ter sido “órfãos” aquelas crianças esquecidas no carro enquanto seus pais faziam compra no shopping? Ou aquela criança sul-coreana de apenas seis meses que morreu de fome enquanto os pais jogavam game? Isso também não seria o caso da Isabella Nardoni ao ser atirada do prédio abaixo por um dos pais? O que dizer do menino baiano cujo padrasto lhe encravou no corpo cerca de 50 agulhas?

Assim, a “mãe-midia” dará à luz cada vez mais a filhos narcisistas; estes por sua vez serão pais sem olhos cujos filhos serão também cegos para si.

A exterioridade

“Desarvorado”, sem raiz; sem família, o homem contemporâneo “descansa e dialoga” seus conflitos entre os brothers num reality show. Assuntos que antes eram restritos ao ambiente familiar, tais como discussão entre marido e mulher, traições, a peraltice dos filhos ganham o mundo através da cara de uma televisão. Até mesmo a revelação de uma opção sexual, coisa que nem sempre em família se fala – tudo isso é revelado entre os brothers! A este aspecto da vida cotidiana chamamos de “exterioridade”, onde o crescimento pessoal se dá de e para fora e não interiormente. Uma conseqüência disso é por exemplo, “o prazer está em ser visto tendo prazer, e não em sentir o prazer propriamente dito". Ou seja, o prazer não está em se ouvir a música preferida, mas em ser visto pelas outras pessoas ouvindo a tal música, daí o porquê dos carros serem equipados com som cada vez mais sofisticado.

O pós-homem

Portanto, dito a respeito da “porosidade” do tempo-espaço, da orfandade do homem contemporâneo, bem como da exteriodade, isto é, diz respeito a imaturidade do homem atual , chegamos à conclusão de que vivemos um período que nos remete às cavernas – a caverna virtual (um novo berço) na qual o homem está à mercê dos efeitos midiáticos. Tal dependência do homem da mídia e suas tecnologias é também conseqüência direta do distanciamento deste com a natureza; e que a chamada “crise da civilização” é apenas um parto cujas dores anunciam o nascimento de uma “coisa”!... O pós-homem?

1 comentários:

  • março 29, 2010 10:44 p.m.

    Renato e Quizeiro,
    A televisão é a lareira e a fogueira pós-moderna. A luz dela aquece esses poros frouxos.
    Ela, a TV, é o lugar, o espaço-tempo.
    O noticiário vem como refeições, no café, no almoço e no jantar, adaptando nosso ritmo biológico às emissões noticiosas.
    A TV é um alimento eletrônico entrando na era digital.
    Abraços,
    Ed Wilson

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