10 de fevereiro de 2010

NO DIVÃ DAS PALAVRAS

,
A FANTASIA, O CARNAVAL E A FACA

Gilvaldo Quinzeiro


A fantasia há de anteceder a mão que esculpe a obra, sob pena de que sem aquela a escultura acabada tenda a ser o corpo que sangra para deleite do “escultor”. Os corpos, quando nus, sem a “roupa da fantasia”, podem ter efeito tão devastador para o sujeito quanto o é uma pedrada na cabeça. Sem o uso da fantasia a criança não poria as mãos no mundo, não sem que antes este a mutilasse A fantasia é portanto, a arma que empunhamos para estrangular a realidade, antes que por esta sejamos estrangulados.


Da mesma forma, um carnaval sem fantasia, sem as marchinhas, as columbinas, os pierrôs, os arlequins, os piratas ou seja, sem o espírito do carnaval, enquanto uma festa de raiz e tradição - é uma faca que esfola a alma e ajumenta o corpo. Em outras palavras, a desfantasia tem como resultado o descarnaval e com este o desfolião.

Portanto, esta é uma equação que subtrai a alegria, a criatividade e a espontaneidade do povo esmagada por aqueles que encabrestam também o carnaval ajumentando o povo com melodias que movimentam o corpo, mas empobrecem a alma.

Um carnaval sem a fantasia ganha um sujeito esfolado da sua subjetividade desejoso de fazer da “faca empunhada” a sua autoafirmação.

Coincidência ou não, os últimos “carnavais” em Caxias têm se transformado numa praça de guerra, onde os jovens experenciam com o corpo as marcas dos estiletes, canivetes e facas, aquilo que na fantasia do artista seria apenas mais uma obra de arte, no entanto, na dura e cruel realidade - os corpos que se despedaçam.

Por quantos carnavais ainda vamos ver os jovens esculpindo com facas e outras armas, as feridas nos corpos dos outros? Quem assumirá a responsabilidade pela morte do carnaval em Caxias?

0 comentários to “NO DIVÃ DAS PALAVRAS”

Enviar um comentário

Obrigado por sua contribuição!

 

Blog do Renato Meneses Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger